terça-feira, setembro 21, 2010



Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora,
maus pensamentos, sensações, desejos.
Contudo ficar sabendo foi melhor, estou mais densa,
tenho âncora, paro em pé por mais tempo.
De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo.
Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso,
na hora H nado com desenvoltura.
Guardo sabedorias no almoxarifado.

Adélia Prado

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A vida é muito bonita,
basta um beijo
e a delicada engrenagem movimenta-se,
      uma necessidade cósmica nos protege.”
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***
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.


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