Seria injusto não falar da menina
vestida de céu e de seus temporais.
Pelo caminho de laranjeiras floridas
percorre sem pressa alguma
a estrada que à leva ao cenário intempestivo
de uma cidade de luzes.
Clarões se abrem em câmera lenta,
fotografando o mundo,
fazendo com que ela abra os braços,
teimando em abraçar a terra,
e resgatar indiferente a melancolia de Munch.
Folhas de outras estações rodopiam ao vento,
caindo ao chão feito promessas de beijos
semeados em terra profunda,
encurtando a distância entre
o azul escuro bordado de luz
e se as raízes que a prendem na terra.
A menina do fim da estrada,
não fechou as janelas, nem trancou as portas,
apenas esperou docemente...
"que espetáculo dos deuses não tivesse fim."
E sentou-se no anfiteatro do céu,
querendo ser carregada na torrente de vento
porque era atraída por ela,
como se uma força invisível a impelisse
a caminhar sobre seus medos
e ir ao encontro do destino das aves
que migram buscando verões..
A menina feito temporal e ventania
continuou a tecer um fio de luz..
***
Clarice Lispector