sábado, setembro 30, 2006

Girassol na tarde
se curva em reverência
-o sol se vai.
De longe eram flores
Chegando próximo a árvore
– tantas borboletas.
Meu canto busca sempre uma palavra
que seja companheira na canção.
A minha voz que canta se declara:
viver a vida sempre na emoção
Uma palavra só não se prepara
puxando outra palavra sem razão
na vida que se encanta e se dispara
no claro tiro cego de paixão.
Viver a arte que procura ver
os lábios desbotados da linguagem
deixando a claridade me envolver
no sopro que me leva na paisagem
amaciando a pena ao escrever
teu nome, meu amor, minha viagem...

Ao cair da tarde
o céu recebe outras cores
–bem vindo arco-íris.
Anibal Beça

A arte de ser feliz
Cecília Meireles

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade
que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia
um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem,
de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãsvinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão
umas gotas de água sobre as plantas.Não era uma rega:
era uma espécie de aspersão ritual,para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que
caíam de seus dedos magros e meu coração
ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos,sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas,como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecempersonagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar,cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas,
e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim.

Fiz pra você que lê o blog...

segunda-feira, setembro 25, 2006

A vida é por vezes assim,
retorcida.
Mas olhando depois
com maior atenção
para os seus
ramos disformes,
até conseguimos
vislumbrar sereias
que parecem
espreguiçar-se de
um sono profundo.
Lições da natureza...
Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra
o corpo,os pés?
Isso é que é voar?
Não.
Voar é libertar-me,
é parar no espaço
inconsistente
é ser livre,
leve,
independente
é ter a alma separada
de toda a existência
é não viver senão
em não -vivência
E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório,
momentâneo...
Aquele que voa
tem de poisar
em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
Ana Hatherly
"Que enfeitem as minhas manhãs os girassóis,
enquanto aguardo o teu chamado,
enquanto aguardo a tua voz."Guthrie

O teu coração está onde está o teu tesouro.
E o teu tesouro precisa de ser encontrado,
para que tudo possa fazer sentido"

quarta-feira, setembro 20, 2006


cada vez que nos perdemos.
Amo a Vida
*
Amo a vida
Fascina-me
o mistérios
de existir
Quero viver a magia
de cada instante,
Embriagar-me
de alegria
Que importa
a nuvem
no horizonte
Chuva de amanhã?
Hoje o Sol
inunda o meu dia!
Helena Kolody

Antes

Antes que desça a noite

imprimir na retina

os rostos amados

o sol, as cores,

o céu de outono

e os jardins

da primavera

Inundar de sons

de vozes

e de música eterna

os ouvidos

antes que os atinja

a maré do silêncio

Conquistar os pontos

culminantes da vida,

antes que se esgote

o prazo de permanência

em seu território sagrado.

Helena Kolody

Se viesses...

Se viesses e pousasses levemente

Os lábios sobre os meus,

Os meus luziriam como a gota de orvalho

Incendiada pela luz do sol nascente.

E quando os outros perguntassem,

surpreendidos:

Que luz é essa, tão linda,

Que põe colorido em tua face

E brilho em teu olhar?

Eu ficaria trêmulo e silencioso,

Emocionado e feliz

Lembrando que pousaste,

levemente

Os lábios sobre os meus.

Se viesses...

No entanto, bem amada,

ainda te escondes,

Ris da minha ansiedade

E não respondes...

Quando fecho as

pálpebras de manso,

Vens, como Vésper

na hora azul da tarde

E ficas a fulgir

em pleno céu distante..

Helena Kolody

quarta-feira, setembro 13, 2006


só o seu sorriso acende
as luzes
da minha cidade
só o seu sorriso
rio
atravessando os canais
dessa tarde
colorindo os bondes
em movimento
desenhando a saudade nas praças
do tempo
nos parques
no vento
por todos os cantos
da minha cidade
só o seu sorriso me acende

na verdade
A.ArrudA
O vôo cintilante da alma
Minha alma espalha-se na noite
a noite imensa a alma infinita
(não cabe no corpo)
sem que você saiba
te faço uma cançao
crescente como a lua
como a paixão
intensa e inquieta
repleta de aflição e calma
E se você estivesse aqui
a noite seria
infinita como a alma
A.ArrudA

Sou barco à procura de porto bem calmo,
de cais que me abrigue de mil tempestades,
de águas serenas p´ra reparar casco
batido nas pedras de tantas saudades.
Nas águas revoltas de tanto oceano,
de dias e noites só vento nas velas,
sofri solidão, curti água e sal...
Procuro por gente e vida e estrelas.
Sou barco partido buscando descanso;
se em porto revolto não acho o abrigo,
remendo meu casco, viajo de novo,
talvez o oceano me indique o amigo.
A terra distante parece mais dócil...
E só, reparando-me as velas rompidas,
talvez voltem sonhos, e fé e esperança,
talvez novo porto me traga mais vida.
Maju Costas
MUITA CALMA NESSA HORA!!!!!!


roubar palavras
por aí
só pra te enfeitar de rosa
de rimbaud
tinta rubi
rima rupestre
na pele que a tua carne
veste
vi
oba oba baudelaire
roubar perfumes
por aí
e outras flores
roubar do tempo a tua hora
de partir
roubar paris só pra
você
os panos nobres que me sobraram
pra te enfeitar
o sonho no repeat
a cidade que já não existe
ruas calmas
aliás
outono e outro
outono
e outro
até demais
luz de cinema nos
quintais
roubar a cena
por aí


pra te assistir

sábado, setembro 09, 2006


você que sempre aparece
na minha praça
na minha
pressa
prece
você uma espécie
de meteorito
do tipo mais bonito
teleguiado
por outro
lado
você sempre
sem rede
na minha
queda
você na corda
bamba
papo sério
até parece
minério
na quebra
na quebrada
no caco da pedra vidrada
cerol
corte de sashimi na luz
do sol
até parece anzol
você bronze
na página
sol
cento e treze
vezes
sol
na comédia mais trágica de nossas
vezes
você nos verbos vestidos de branco
no suor azul
das paredes
e em todas as outras cores que me
deste
e quando de todas você
se despe
e até quando desaparece
você sempre aparece
até parece
uma espécie de flor
celeste
que só nos meus olhos
floresce

até parece


(uma espécie de flor celestial
que só floresce no meu
quintal)

até parece
A.ArrudA

sair da linha
sem pedir
licença
esquecer o ponto
e a sequência
das estações
costurar no escuro
agulhar
o medo
sangrar algum
segredo
fazer jus
na ponta dos dedos
agulhar um blues
dizer adeus
ainda é cedo
descansar
a cruz
sair do medo
sem pedir licença
esquecer o sol

aceso

estou pensando
num quadro
texturas novas
cortina leve
esvoaçando
filó-colméia
voile-nuvem de luz
cortina
se desdobrando
sem fim
sem fim
rede no céu
*
Pra você
ver
e
voar...

domingo, setembro 03, 2006

Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas.
Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano.
Entra.
E toca-me.
Se teus dedos
produzirem
música,
terás
me aprendido.
*
Nalú Nogueira



Liberdade
Aqui me encontro.
Aqui as cores do céu são minha pele.
Aqui a água é meu corpo,
a terra meus cabelos.
Aqui tudo e nada sou em doses bem medidas.
Aqui todos me sentem mas ninguém me toca.
Aqui sou a imortalidade do tempo passado,
um rasgo de luz no céu estrelado.
Aqui, só aqui. E neste espaço infinito,
um querer que se esconde nos beijos guardados,
que me afoga e me devolve à vida,
um querer que vejo em teus olhos
me rouba de mim e me entrega ao mesmo instante,
pinta carmim no meu coração
um carmim intenso, imenso em cada batimento.
Aqui me quedo, pois é um bálsamo
para os venenos do mundo
e o teu amor é o mágico que tenho na alma
e me oferece o bem maior, a liberdade.
Estou aqui, sou aqui.
Raphaela Blat
Quem disse que eles não se encontram?
**
Choram as árvores mortas
Riem as pedras que correm do rio.
Rodopio, rodopio.
Balanço a cabeça
escutando a canção do mar.
Rodopio, rodopio.
Danço ao som
da visão do sol poente.
Pinto os olhos
da cor dos céu,
por vezes cinzento,
por vezes azul.
É a luz que oferece
ao meu olhar essa hipótese.
Choram as ondas vivendo
riem as flores do jardim
Será alfazema? será jasmim?
Não, é a beleza
de um amor perfeito,
nascido num seio de um quadro
que jamais fora pintado,
pois assim o enviaram os deuses
Raphaela Blat