Há rotas que semeamos na procura da verdade... são os passos de luz que deixamos pela vida,
como traços digitais da nossa essência,
ainda que efémeros...
...memórias de outra galáxia , onde apenas sopram ventos de liberdade.
Onde os seres se ajudam nos seus processos vitais
sem se julgarem uns aos outros.
Onde não há nada a perdoar pois não há nada de que ter vergonha
nem nada que se considere uma ofensa.
Tomam as coisas simplesmente como fazendo parte do processo de viver.
Por conseguinte, são todos ligeiros como a brisa,
livres como o vento e etéreos como um beijo envolto em salpicos de espuma ébria de mar.
Os bons desejos dos habitantes dessa galáxia
podem ver-se em forma de flores azuis sobre uma guitarra.
Podem sentir-se à hora do alvorecer e ouvir-se no canto do vento
quando murmuram aos ramos das nuvens e às folhas das árvores das palavras,
segredos de luz...
Esvaziei-me de quase todas as tristezas,
mas deixei, intacta, uma esperança.
Soltei mágoas, presas em palavras
a que troquei as sílabas,
adoçando-as.
Coloquei ilhas de reticências
entre a vida e a dor.
Arrumei o mar no fundo dos olhos
e as asas à superfície da vontade.
E deixei espaço, muito espaço,
para reinventar os momentos
e me recriar.
"São como um cristal,as palavras.Algumas, um punhal,um incêndio.
Outras,orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,leves.
Tecidas são de luze são a noite.
E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta?
Quemas recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,nas suas conchas puras?"
Eugénio de Andrade