terça-feira, novembro 21, 2006



Nesta vida, em que sou meu sono
Álvaro de Campos



NESTA vida, em que sou meu sono,


Não sou meu dono,


Quem sou é quem me ignoro e vive


Através desta névoa que sou eu


Todas as vidas que eu outrora tive,


Numa só vida.


Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,


Mas minha cor vem do meu alto céu,


E só me encontro quando de mim fujo.


Quem quando eu era infante me guiava


Senão a vera alma que em mim estava?


Atada pelos braços corporais,


Não podia ser mais.


Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento


Também, aos olhos de quem bem olhasse


A Presença Real sob disfarce


Da minha alma presente sem intento.

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